Rubens Silva

Contos, Crônica e Poesias - Histórias de amor!

Meu Diário
03/07/2013 11h24
Vale a pena ler de novo.

Eu tive a honra de conhecer essa figura. Me lembro ainda hoje do sorriso desse pai, desse avô que inúmeras vezes visitava o Ginásio Hugo Taylor e ficava horas, cercado pelos internos entre os quais eu me incluía, falando os mais diversos idiomas, era poliglota o Irmão Estanislau. No alto da escada que conduzia aos andares superiores da escola, ele brincava conosco, após o jantar. A brincadeira consistia em ele falar uma frase num determinado idioma e nós alunos internos tínhamos que dizer qual língua ele estava falando. Tenho vaga lembrança das visitas que ele fazia às turmas de tucos quando eu era menino ainda de quatro ou cinco anos de idade, pois na época meu pai era feitor, não tinha ideia de que um dia o encontraria nos corredores da minha escola. Lembro que minha mãe falava com muito carinho do Padre Estanislau, ela dizia que eu seria padre por que era muito agarrado com ele. Muita saudade daqueles tempos. Leiam essa crônica de J. L. Bica Larré, publicada em 06/10/2007 no Diário de Santa Maria.

“O padre das cabras

Presto hoje um preito de saudade e de justiça a um dos melhores tipos humanos que tive o privilégio de conhecer. Pretendia fazê-lo no dia 20 de agosto último, quando transcorreu o 33° aniversário de sua passagem para o Oriente Eterno. Lamentavelmente, a data passou "in albis" na memória ingrata dos santa-marienses.

Falo do alemão Karl Joseph Gold, que veio para o Brasil aos 20 anos e, como Irmão Marista, adotou o nome de Estanislau José. Irmão Estanislau ficou mais conhecido pela alcunha de "padre das cabras". Naturalizou-se brasileiro e, pela Lei Municipal nº 819, de 10-09-1959, recebeu oficialmente o título de Cidadão Santa-Mariense, em reconhecimento pelo notável trabalho que desenvolveu em favor dos pobres, dos trabalhadores em geral e dos ferroviários, em especial, no âmbito da educação, e pelo pioneirismo de suas obras sociais.

Foi ele que transformou em comunidades organizadas os pequenos núcleos de "tucos" e turmeiros que viviam com suas famílias, ao longo das linhas da Viação Férrea, em estado de miséria, ignorância e abandono. Transformou as antigas aulinhas de alfabetização de adultos que a Cooperativa dos Ferroviários mantinha em Santa Maria, num grande projeto que ele mesmo implantou, de escolinhas nas comunidades ferroviárias. De cada local, ele escolheu as mulheres mais dotadas e as tornou professoras das crianças, não antes de treiná-las em Santa Maria. Nos cursos de formação mínima dessas professoras, elas receberam aulas de alfabetização de crianças, higiene corporal e bucal, economia doméstica, primeiros socorros, educação religiosa, culinária de alimentos saudáveis, sociabilidade, cooperativismo, corte e costura, horticultura e fruticultura etc.

Fez da alimentação das crianças e familiares daqueles ferroviários a grande bandeira de sua atuação maravilhosa. Os pequenos precisavam tomar leite. Mas, como as vacas são muito caras e requerem espaços e cuidados maiores, criou e distribuiu a cada família uma cabra leiteira, a "vaca dos pobres", como ele chamava. Criou e distribuiu filhotes de suínos e aves. Levava para essas pequenas comunidades, ninhadas de pintos, sementes de hortaliças e mudas de árvores frutíferas. Ensinou o troca-troca entre eles. Trouxe da Europa as primeiras sementes de soja e introduziu o cultivo dessa preciosa leguminosa no Estado. Como esses pequenos vilarejos eram construídos na estreita faixa entre os trilhos dos trens e a cerca das propriedades rurais, conseguia com os donos dos campos a cedência de alguns lotes para plantação e criação dos pequenos animais. Os fazendeiros passavam a ter nessas famílias os seus posteiros, sem nenhum desembolso.

Irmão Estanislau foi uma criatura abençoada. Tinha entrada franca em todas as portas, em todas as instituições, em todos os gabinetes e repartições públicas. Sempre pedindo para os seus pobres, seus "filhos". Nada tinha de seu. Pedia para distribuir aos seus dependentes. Foi um apóstolo. Nem os ferroviários nem a ferrovia teriam sido o que foram sem a presença do "padre pedinchão", o "Irmão das cabras", o nosso Irmão Estanislau José. Tenho mais coisas importantes a contar sobre ele, em próxima edição”.

(J. L. Bicca Larré  - 06/10/2007).

 


Publicado por Rubens Silva em 03/07/2013 às 11h24
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